quarta-feira, 1 de maio de 2013

Polir.

Você vive nos escombros mortos de mim que à noite se envernizam e valem caro.
As vezes em que meu nome trespassou sua garganta soou como se você estivesse contando um segredo antigo e feio. O pedaço da sua história que não entrou em prática, um rascunho deturpado: eu.
Há algo que ainda me prende, que faz meus passos se redirecionarem novamente ao seu sítio. Espontâneo e obrigatório, duvidoso e predestinado. Volto, pelo amor. O amor que cuidei e aparei tão maltratadamente. Volto porque o nuance do céu não é o mesmo quando minto afirmando sua inexistência.
Você só deixou um isqueiro - o esqueceu no tapete do sótão onde vou nas noites de quinta para escrever sobre sua subversidade - e eu me pergunto se ainda ri de saber que será sempre a parte cinza da minha essência.
Eu poderia te mandar um livro com todos os poemas que jamais escreverei e imaginar sua cara de quem diz "ganhei, de novo", mas o jogo acabou. A falta que seus livros na estante fazem é plena, amena. Convivemos com cautela. Não me lembro do seu cheiro, mas sei que se assimilava à um haicai leve que escrevi. O releio todos os dias, então.
Há um tempo observo sua audácia em mergulhar nos meus medos atávicos e, finalmente, após abraçar o diabo por noites seguidas, entendi:
a fórmula da cura é a mesma do veneno.

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