terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Não havia absolutamente nada a ser feito. Não pelas minhas mãos. Na verdade, havia, mas eram todas aquelas coisas que não existem para serem levadas à realidade. Escritas, talvez. Ficam bonitas e inspiradoras em romances e peças teatrais, mas não em contato com o concreto. Assim, eu não podia me mover para nenhum lugar. Permanecia ali, sentada, comendo alguns livros caros, com os punhos latejando em dor. Sem café, porque café me lembrava o meu vício em nicotina e eu estava em casa. Estava em casa e continuaria em casa até o fim da semana, quando podia abrir a boca e engolir a cidade junto com gozo alheio quente e salgado. Sem paz, porque não me ensinaram como procriá-la. Em casa, ora sentada, ora deitada, ambas queimando em calor e em ódio calmo. O pior tipo de ódio, já contei essa. Lia, rabiscava qualquer coisa, bolava quinhentos textos na mente, os tiravam de cogitação, chupava gelo e vivia com a bunda à mostra. Era tudo e absolutamente tudo que eu tinha direito e espaço para ser, fazer.
Sabia muito bem escrever. (Existe a teoria de que era dom, me contaram, um dia. Acho que eu realizava a prova para mim mesma de que tal era realmente verdadeira quando conseguia, em um mínimo tempo, criar estórias muito bem semelhantes à histórias e agradar uma porcentagem de carentes por romances e verdades poéticas.) Era dom. Eu sabia muito bem escrever sobre o que quisesse, quando quisesse, com a intenção e a intensidade que me desse na telha, mas o inferno estava me comendo os pés. Há semanas tentava colocar no papel o quanto sentia falta de um cara - que nunca fez parte da minha vida, desses, que se encontram em qualquer bar por aí, que eu não recordava o rosto presente em nenhuma das minhas melhores lembranças e, mesmo assim, sentia saudade. Saudade mútua, evacuada, que quase rachava minhas paredes - e não conseguia. Não fazia menor ideia de como se traduzia para a língua desses humanos imundos a saudade que morava no meio do meu peito pequeno. Sempre que tentava, acabava com um monte de cinzas nas mãos calejadas. Pó vulcânico.
Nunca possuí nenhum instrumento, nada que o fizesse voltar para o lugar que jamais deveria ter pisado os pés. Poderia ir, claro, claro que poderia. Gritar, esgoelar, o fazer olhar para mim com aqueles olhos de buraco negro e me dirigir algumas palavras. Mas não é assim. Merda, não é assim. Ele nunca voltaria se não fosse com as próprias pernas. E é aí, nessa certeza, nesse pensamento, que morava a dor e o ódio. Quando ele decidiria que era hora? Quando lembraria da sua casa em mim?
Continuava sentada, vinte e quatro por vinte e quatro horas, esperando o barulho da porta sendo quebrada e do mundo explodido. Sentia sua falta como se tivesse perdido os dentes da frente em alguma luta avulsa e ensanguentada.
Meu destino sempre foi mudar o rumo do destino e eu o esperava para mudar o rumo do meu destino de mudar a merda do destino. Um paradoxo tão ácido quanto minha voz ecoando sozinha de madrugada, sussurrando em ritmo desconcertado “five story fire as you came, love is a losing game…”
Dentre tudo, o que mais me incendiava a sanidade era a consciência de que tudo poderia ser feito, mas eu deveria esperar. A dor da lucidez. Se eu o quisesse de volta, em todos os cantos de mim, presente e real, não poderia buscá-lo.
Assim, então, o esperava. Vazia como o cérebro de um cristão qualquer que não desiste da teoria de que existe a droga de um deus mexendo os pauzinhos lá em cima, sozinha como Buk e sentindo um amor tão precoce que se assimilava ao amor que todos temos por algo que nunca alcançaremos.
Não havia mecanismo nenhum, a engrenagem estava emperrada e o rio fluía água de esgoto.
Sentada, ali, sem cigarro e paz.
O esperava.
Espero.


(Eu, a abandonada que não sabe te abandonar no papel.
Yasmin Diniz)

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