quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Meu pescoço espera suas garras de larvas.

Perdi o dom, a manha, o jeito e a minha única válvula de escape. Não sei mais te escrever, amor.
Provavelmente é contra as regras te nomear assim. Um tiro no próprio pé. Mas, who cares? Quem, Tyler? Nem você, nem eles, nem ela, nem eu, nem nós. Em um mundo que o nosso amor é permitido existir e existe, nada mais deve ser crime.
Há dias me amordaço à beira da cama e me auto flagelo na tentativa de impedir que, você, ao me ouvir desintegrar e destrancar a boca num silêncio choramingado de saudade sua, abra as asas num sorriso sem escrúpulo (aquele que você sabe bem dar), como quem joga na minha cara que o jogo é seu. Aguento muito mais que o permitido, por puro egoismo, até. Acho uma calamidade lamentável saber que você ri longe de mim, da minha visão de águia, dos meus ouvidos. Mesmo quando te odeio inteiro, ainda amo seu riso velho. E, não me encontro sendo a única. Uma fila caótica de outras tantas vagabundas que, igual a mim, abraçam o delírio ao ver o céu ácido que sai do som da sua risada. Quase sempre alcanço sucesso nas tais tentativas doloridas. Durmo ao pé da cama, no chão frio, com a gola da camiseta molhada e a consciência três vezes mais insuportavelmente leve. De tão leve, pesada.
Não dura muito, você sabe, eu também. A volta sempre volta e se concretizam uma trégua a cada três meses. Armas abaixadas e todo uma síndrome de cheiro-de-casa. Talvez, só talvez e só dessa vez, o intervalo de tempo seja menor. Meus pés andam a beira da galáxia vizinha (ou nem tão vizinha assim) que eu nem sei o nome, a profundidade, a dimensão e acho que ser engolida pelo desconhecido é uma salvação bonita - não tanto quanto seria se seus braços branquinhos e com som de brado romântico me salvassem antes do pulo acromático.
Toda noite a vontade é somente de te gritar por meio de qualquer ligação clandestina e te dizer que eu não sei mais escrever. “Não sei mais te colocar no papel, Tyler. Me ensina de novo, por favor. Não perde a paciência comigo porque eu sou parte das suas esferas preciosas. Pega minha mão, me explica a fórmula de deus. Não sei escrever, salva meus joelhos de mais essa morte porque você já me resgatou sucessivamente de tantas outras sem volta, sem título e enterro. Sabemos que não é preciso o grito de redenção pela minha voz na merda do seu ouvido dizendo que a vida sem suas mancadas é cinza, então, não me deixa, não pára de procriar dor nos meus dedos. Volta aqui, me enforca e segura meu cabelo cru na sua mão firme, com postura de quem ensina o bicho-do-mato machucado a viver em meio ao concreto, enquanto meu vômito escorre pelo chão de qualquer esquina por aí. Transa comigo depois. Ou não faz nada disso, não se move, não gasta tempo em prol do meu sorriso congelado. Se a sua onisciência te contar que não há mais atalhos para nós, me deixa morrer. Sem dó nem piedade. Você conhece a morte tanto quanto eu. Autoriza minha ida ou me ensina a escrever de novo, pelo amor a arte.”
Nunca te procuro por amor, só por diversão. É agradável tanto para cá quanto para aí saber que existimos e estamos um pelo outro, meio a risadas. Sempre te privo de ouvir meus lábios exprimindo tantas palavras. E não é, nem de longe, por medo de que você corra sem olhar para trás ou tenha dó. Seus ombros burgueses aguentam todo o meu peso, mesmo que isso não tenha explicação lógica. Sei, até, que a única pessoa no mundo capaz de me entender caso eu mate minha mãe daqui há dez minutos atende pelo seu nome. A explicação para nunca ter clamado por ajuda num tom que seus ouvidos pudessem distinguir minha voz dos ruídos do mundo é a de que eu precisava fazer isso escrevendo. Jamais jogar inspirações fora, nota mental. Falhida na escrita escrevo sobre o apelo por ajuda para escrever.
Só não sento no chão do seu quarto e te conto como vivo agora porque você já sabe, Tyler. A maior parte do tempo passo sendo quem ninguém conhece, quem ninguém gostaria de conhecer (e quem você já engoliu pós mastigar milhares de vezes). Segurar os meus tsunamis entre a garganta e a lingua é infinitamente penoso, porém, meus demônios são completamente eficazes quando o assunto é manter-me no trono. Ser coroada rainha de mim. Você sabe. Aprendi na dor e no sadismo que assumir minha fragilidade para qualquer filho da puta que me abre os braços é roleta russa. É roleta russa, e eu não brinco com a morte. (Ou ela não brinca comigo.)
Ninguém me deu fichas, e, mesmo que sim, eu nunca apostaria em você, nem em mim. Provavelmente as esqueceria em qualquer gozo alheio às tantas da noite do outro lado da cidade. Não somos produtos de estoque nem de corrida, Tyler, e, no fim, opiniões alheias são só opiniões alheias porque, infelizmente, sabemos que o que vale é a luta em pé.
Pouco me fodo se a culpa do seu ego inflado e ignorante é minha. Te escrever é um orgulho muito bem ferido em prol da minha saúde mental e eu não quero ver o fim chegar. Não quero acreditar que existe a opção de pause para a engrenagem dos meus dedos. Meu masoquismo agradece sua existência e sua disposição em atuar tão bem no meu palco caindo aos pedaços.
Por isso, por mais isso, atende o meus gritos silenciosos, segura meus dedos fétidos e recomeça comigo. As letras não sabem viver sem nós e nós não existimos sem as letras.
Te olhar é ter a plena certeza de que eu sou você e esse é um colapso tão infernal que preferimos deixar quieto, como uma bomba amarda. O mesmo, exatamente o mesmo, com o amor.
Só você me fode e é só contra você que eu luto. Alguma ou qualquer outra hora alguém vence. Mesmo sabendo, nós, que a minha vitória ou a sua são só teorias da conspiração. A patente do placar final é nossa.

(Yasmin Diniz)

2 comentários:

  1. Yasmin, nao tenho palavras pra expressar o quanto sou apaixonada pela sua escrita e tudo voce demonstra com ela. Se verdadeiras experiencias ou fictícias, quero te dizer que muitas vezes elas descrevem o que passam dentro de mim. Voce tem um futuro brilhante, nao deixe ninguém tirar isso de voce.

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